Por Jaime Vasconcellos, economista.
A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de reduzir a taxa Selic de 14,25% para 14,00% ao ano representa mais um avanço no processo de flexibilização da política monetária brasileira. Trata-se da quarta redução consecutiva dos juros básicos, refletindo um cenário de inflação mais favorável e fortalecendo a expectativa de um ambiente econômico gradualmente mais propício aos investimentos e ao consumo.
Evolução recente da Taxa Selic (% ao ano)

Fonte: Banco Central do Brasil
A melhora do quadro inflacionário foi determinante para essa decisão. Em junho, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrou alta de apenas 0,16%, enquanto as projeções para julho apontam inflação próxima de 0,10%. Para agosto, trabalha-se inclusive com a possibilidade de uma deflação ao redor de 0,20%, influenciada principalmente pelo crédito do Bônus de Itaipu nas contas de energia elétrica.
Esses resultados aumentam a probabilidade de continuidade do ciclo de redução da Selic ao longo do segundo semestre, com expectativa de pelo menos mais um corte de 0,25 ponto percentual ainda em 2026. Entretanto, o ritmo dessa flexibilização deverá permanecer moderado. As projeções ainda indicam inflação próxima de 5% no encerramento do ano, acima do teto da meta de 4,5%, justificando a cautela por parte do Banco Central. Além disso, a resiliência do mercado de trabalho e as incertezas internacionais, especialmente aquelas relacionadas aos conflitos geopolíticos e às oscilações do petróleo, continuam impondo riscos ao comportamento dos preços.
Para o varejo em geral, e em especial para o comércio de material de construção, a trajetória da Selic merece acompanhamento ainda mais atento. Trata-se de um segmento fortemente dependente das condições de crédito, uma vez que reformas, ampliações e construções costumam envolver decisões de maior valor e, muitas vezes, financiadas. Juros elevados reduzem a disposição das famílias para investir em seus imóveis, impactam o mercado imobiliário e acabam refletindo diretamente no desempenho das lojas do setor.
O custo do crédito também pesa sobre as próprias empresas. É preciso lembrar que a taxa média de juros das operações com recursos livres para pessoas jurídicas continua próxima dos 25% ao ano, níveis similares aos vistos em 2017. Isso encarece o capital de giro, dificulta a formação de estoques, aumenta o custo das antecipações de recebíveis e reduz a capacidade de investimento dos empresários justamente em um segmento que exige planejamento constante de compras e gestão financeira.
Embora os efeitos da queda da Selic ocorram de forma gradual, cada redução representa um passo importante para melhorar o ambiente de negócios. À medida que os juros recuem e as instituições financeiras transmitam esse movimento ao mercado de crédito, a tendência é de fortalecimento da demanda por reformas, construção e aquisição de imóveis, beneficiando toda a cadeia da construção civil e, consequentemente, o comércio varejista de material de construção.
Para o empresário do setor, a mensagem é de otimismo com muita responsabilidade. O ciclo de redução dos juros está em curso e tende a favorecer a atividade econômica, mas a recuperação será gradual. Por isso, este continua sendo um momento de reforçar a gestão financeira, preservar o capital de giro e preparar a empresa para aproveitar uma demanda que tende a ganhar força à medida que o custo do crédito diminua nos próximos trimestres.
























