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Jaime Vasconcellos, economista.

O ambiente macroeconômico brasileiro chega a setembro praticamente com os mesmos pilares dos últimos meses. O emprego continua crescendo e a Selic começou a cair, mas ambos os sinais positivos são tímidos: a geração de vagas perdeu velocidade e os juros, mesmo em trajetória de queda, permanecem em patamar muito elevado. Do outro lado, seguem intactos os principais freios à economia: famílias altamente endividadas, crédito caro e empresas pressionadas pelo custo financeiro.

O mercado de trabalho ainda sustenta a atividade, mas já não com a mesma força. Em julho, foram criados 58,6 mil postos formais, menos da metade de junho. No acumulado do ano, são 972,2 mil novas vagas, mas uma redução de 30% em relação ao mesmo período de 2025, prova evidente que o emprego, embora ainda seja um ponto de sustentação, também começa a perder potência.

Nos juros, ocorre algo semelhante. O Copom reduziu a Selic de 14% para 13,75% ao ano, no terceiro corte consecutivo de 0,25 ponto percentual. É uma mudança na direção correta para a atividade, mas ainda insuficiente para alterar significativamente a realidade de quem precisa de crédito, especialmente mais barato. A taxa básica continua elevada e a transmissão para o consumidor e para as empresas é lenta e incompleta.

O PIB do segundo trimestre sintetiza bem esse quadro. A economia cresceu apenas 0,5% sobre o trimestre anterior, depois de avançar 1,1% nos primeiros três meses do ano. Na comparação anual, o crescimento foi de 2%, enquanto a expansão acumulada em quatro trimestres ficou em 1,9%. Mais preocupante para o comércio, o consumo das famílias recuou 0,4% no trimestre.

Não é uma economia em recessão, mas tampouco é uma economia com motores suficientemente fortes para sustentar um crescimento mais robusto. O problema é que o consumo, principal componente da demanda interna, encontra um consumidor com pouco espaço no orçamento. Em agosto, 82% das famílias estavam endividadas, segundo a CNC, e a inadimplência permanecia próxima de 30%. Emprego e renda ajudam, mas uma parcela relevante desse dinheiro já nasce muito comprometida com dívidas.

Para as empresas, a equação também continua apertada. O crédito livre para pessoas jurídicas chegou a 25,36% ao ano em julho, maior nível desde 2017, enquanto a inadimplência empresarial alcançou 4,2%. Para um setor como o comércio de material de construção, fortemente dependente de capital de giro, financiamento e capacidade de carregamento de estoques, esse custo não é apenas um dado macroeconômico: afeta diretamente margem, caixa, liquidez, vendas e investimento.

Assim, o principal risco neste momento não é uma ruptura da economia, mas seu esgotamento gradual. Os indicadores ainda são positivos, porém cada vez menos capazes de sustentar o ritmo de crescimento. O emprego avança mais lentamente, os juros caem de forma conservadora e o consumo das famílias já recuou. Enquanto isso, o endividamento limita justamente os dois motores que poderiam dar maior dinamismo à atividade: consumo e investimento.

É nesse ambiente que o calendário eleitoral ganha espaço. A política poderá alterar expectativas, juros, câmbio, investimentos e confiança, mas não eliminará os problemas estruturais e conjunturais que já estão postos. Independentemente do ambiente partidário, o empresário continuará enfrentando crédito caro, consumidores endividados, necessidade de capital de giro e uma economia com menor capacidade de crescimento, especialmente quando já olhamos 2027.

Por isso, mais importante do que tentar antecipar o resultado político das próximas semanas será acompanhar os cenários que se desenham e entender seus possíveis efeitos sobre o negócio. Para o varejo de materia de construção e demais segmentos, isso significa preservar capacidade de reação: cuidar do caixa, controlar estoques, acompanhar margens, avaliar o custo das dívidas e ser seletivo nos investimentos. Em uma economia que ainda cresce, mas perde força, subsistir e crescer dependerá cada vez menos de esperar por um cenário ideal e cada vez mais de estar preparado para cenários diferentes.

ESTIMATIVAS PARA A ECONOMIA BRASILEIRA NO FECHAMENTO DE 2026:

  • PIB: 1,90%                                               
  • Inflação (IPCA/IBGE): 5,00%                                                      
  • Taxa SELIC: 13,50% a.a.
  • Taxa de Câmbio: 5,15
  • Balança comercial (em US$): + 80 bi
  • Taxa de desocupação ao fim do ano (PNADc/IBGE): 5,1%
  • Volume de vendas do comércio ampliado BR (PMC IBGE/12 meses): +1,7%
  • Volume de serviços BR (PMS IBGE/12 meses): +2,0%

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