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Por Jaime Vasconcellos, economista.

No varejo existe uma regra que parece óbvia, mas que, às vezes, é esquecida: para que haja consumo, é preciso que exista não apenas renda, mas renda disponível. Quando o orçamento das famílias está pressionado por inflação, juros elevados, endividamento ou qualquer outro fator, cada real passa a ser disputado por diferentes destinos. É nesse contexto que a expansão das apostas esportivas e dos jogos online merece ser observada também sob a ótica econômica.

O dinheiro utilizado em uma bet deixa de estar disponível para outras finalidades. Pode deixar de pagar uma dívida, de compor uma reserva financeira ou simplesmente de ser gasto na compra de um produto ou na contratação de um serviço. Quando esse comportamento ganha escala, deixa de ser apenas uma escolha individual e passa a produzir efeitos sobre a circulação da renda.

Os números mostram o tamanho que esse mercado alcançou. Dados do Ministério da Fazenda indicam que as empresas de apostas autorizadas a operar em âmbito federal receberam R$ 220,6 bilhões em depósitos ao longo de 2025. Já um estudo da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) estima que as bets retiraram R$ 143,8 bilhões do comércio brasileiro nos últimos dois anos. A entidade calcula ainda que 269 mil famílias entraram em situação de inadimplência em decorrência das apostas.

Não se trata, portanto, de uma atividade de pouca expressão dentro do orçamento das famílias. E talvez um dos aspectos mais preocupantes seja justamente a forma como as apostas passaram a ser percebidas. Para parte dos consumidores, elas são vistas como uma possibilidade de “investir”, obter uma renda complementar ou melhorar a situação financeira.

Essa percepção é equivocada. Em uma aplicação financeira, há a expectativa de remuneração associada a um ativo ou instrumento econômico. Na aposta, o resultado depende do acaso e existe a possibilidade mais que concreta de perda dos recursos empregados. Transformar uma atividade de risco em expectativa de renda, leva parte dos consumidores a comprometer o dinheiro que deveria cumprir outras funções dentro do orçamento. E o problema se torna ainda mais delicado entre as famílias de menor condição financeira.

É nesse cenário que deve ser compreendida a Medida Provisória nº 1.394/2026, que proíbe a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa no país. Independentemente da discussão política que naturalmente acompanha uma decisão dessa dimensão, existe um aspecto econômico objetivo: reduzir a presença das apostas significa também reduzir uma das destinações possíveis da renda familiar. E o recurso que deixa de ser apostado pode ser direcionado às necessidades e às decisões financeiras das famílias, em vez de ser submetido ao resultado incerto de uma aposta.

Há ainda uma contradição no próprio processo de regulamentação que merece ser discutida. O Brasil mantém restrições históricas aos jogos de azar em estabelecimentos físicos, como cassinos e bingos, mas permitiu a expansão das apostas de quota fixa no ambiente digital. Se os riscos associados aos jogos de azar justificam a proibição ou restrição em um espaço físico, a simples mudança para uma plataforma online seria, por si só, suficiente para eliminar esses riscos?

Nesse sentido, a atual decisão também chega depois de um processo que poderia ter sido muito diferente. A medida provisória foi editada às vésperas do primeiro turno das eleições, o que torna o momento particularmente sensível. Mas os efeitos econômicos das bets não começaram agora. O endividamento associado às apostas, a saída de recursos do consumo e a dimensão alcançada pelo mercado já eram questões conhecidas. A discussão deveria ter sido enfrentada muito antes.

Por fim, para o varejo o debate tem uma consequência bastante concreta. Discutir o fim das bets também é discutir a qualidade da destinação da renda disponível da população. E, para o comércio, quanto maior for a capacidade das famílias de preservar o seu orçamento, reduzir o seu endividamento e decidir conscientemente como utilizar melhor os seus recursos, maiores serão as condições para que o dinheiro volte a circular na economia real.


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