O Banco Central reduziu para 1,8% a projeção de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2026 e espera nova desaceleração em 2027, com expansão de apenas 1,4%. Como a economia cresceu 2,3% em 2025, o ritmo projetado para 2027 representa uma perda de aproximadamente 39% na velocidade de crescimento em dois anos. Para analistas e executivos do mercado financeiro, a revisão não indica recessão, mas sinaliza um período de demanda mais fraca, juros ainda elevados e crédito mais restrito. É uma realidade que chega diretamente ao balcão do comércio varejista. “Não é um cenário de recessão, mas crescer nessa faixa por muito tempo é pouco para o Brasil. A preocupação maior é isso virar uma tendência, porque crescimento baixo acaba limitando investimento, produtividade e aumento de renda”, avalia Valdir Piran Jr., CEO do Grupo Intra.
O efeito mais imediato para o varejo tende a aparecer no comportamento das famílias. Para Gustavo Assis, CEO da Asset Bank Management, o esforço para conter a inflação tem um custo visível na ponta. “A política monetária atua para reequilibrar a inflação, mas o efeito desse processo aparece na decisão de consumo das famílias e na disposição das empresas em ampliar investimentos”, afirma.
No mercado de trabalho, a piora deve ser gradual. “No emprego, o efeito tende a aparecer com defasagem, primeiro na redução de novas contratações e dos ganhos salariais, antes de uma piora mais evidente da ocupação”, explica Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos. Piran Jr. segue a mesma linha de raciocínio e lembra que o mercado de trabalho ainda está relativamente forte. “Não acredito em uma piora abrupta do emprego”, afirma. No entanto, ele faz uma ressalva: se a atividade continuar desacelerando, naturalmente haverá uma menor criação de vagas, renda crescendo menos e um consumidor ainda mais cauteloso.
Outro detalhe importante é o endividamento das famílias que tem logicamente grande influência nas vendas do comércio. Cassio Viana de Jesus, CIO da Pilar Capital, comenta que o cenário para 2027 deve ser de menor geração de empregos, menos pressão por aumentos salariais e consumo mais fraco. “Esse efeito tende a ser ampliado pelo comprometimento recorde da renda das famílias com o pagamento de dívidas”, alerta.
Crédito mais caro e seletivo
Para o comerciante, o crédito é algo que merece preocupação redobrada: afeta tanto as vendas financiadas ao consumidor quanto o capital de giro e os investimentos da própria loja. “O principal ponto de atenção está no efeito acumulado dos juros elevados sobre o crédito. Em uma economia que depende do financiamento para consumo e produção, o aumento do custo do capital exige mais planejamento por parte de empresas e famílias”, afirma Alberto Friggi, CEO da Friggi & Secco. Segundo ele, “a qualidade das garantias, a capacidade de pagamento e a estruturação das operações passam a ser fatores determinantes para decisões financeiras”. Outro aspecto dentro do quadro de acesso a crédito é a seletividade das instituições financeiras que já começa a ser sentida e deve favorecer quem tem as contas em ordem. Valdir, do Grupo Intra, avalia que as empresas com balanços sólidos e boa geração de caixa continuarão tendo acesso e condições melhores. “Já as mais alavancadas ou dependentes de refinanciamento devem encontrar mais dificuldade”.
A maior preocupação dos especialistas não é um ano de crescimento fraco, mas a possibilidade de o quadro se arrastar. “A desaceleração é condição para o processo de desinflação, a questão é que o Brasil está perdendo ritmo a partir de um potencial de crescimento que já é baixo”, avalia Cassio, da Pilar Capital. E complementa: “Juros reais elevados e crédito mais restrito adiam investimentos produtivos. E o investimento que não acontece hoje reduz a capacidade de crescimento, a produtividade e a geração de renda amanhã.” Ele aponta ainda uma consequência fiscal: o Orçamento de 2027 foi elaborado com previsão de crescimento de 2,5%, bem acima do 1,4% projetado agora pelo BC. “Uma economia mais fraca reduz a arrecadação e dificulta o cumprimento da meta fiscal. Isso aumenta o prêmio de risco, o que tende a manter a curva dos juros longos elevada”, explica.
O consenso é que a redução dos juros básicos, sozinha, não resolve o problema da economia brasileira. “A queda da Selic ajuda, mas para uma recuperação mais consistente em 2027 será importante que também diminuam o risco fiscal, os juros longos e o custo efetivo do crédito”, conclui Piran Jr. Já Cassio acredita que a saída passa por mudanças estruturais: “É um círculo que só será rompido com ajuste fiscal crível e medidas que elevem a produtividade, pouco será revertido apenas com novos estímulos de curto prazo.”
























