Por Jaime Vasconcellos, economista.
No varejo de material de construção, estoque é parte essencial da operação, mas também representa uma das maiores parcelas de capital imobilizado do negócio. Lojas precisam manter variedade e disponibilidade para atender o cliente, muitas vezes trabalhando com grandes volumes físicos e produtos de diferentes velocidades de giro. O desafio está em encontrar o equilíbrio: manter a mercadoria necessária para não perder vendas, sem transformar as prateleiras, depósitos e áreas de armazenagem em recursos financeiros parados.
Essa preocupação ganha ainda mais importância no atual cenário do varejo de material de construção. No primeiro semestre de 2026, o faturamento bruto real do segmento apresentou queda de 15,5% na capital e 9,6% no Estado de São Paulo. Em um mercado de vendas mais fracas, manter estoques elevados significa deixar uma parcela maior do capital da empresa imobilizada justamente em um momento em que liquidez e capital de giro se tornaram ainda mais importantes.
Os dados mais recentes da FecomercioSP reforçam esse alerta. Seu indicador de adequação dos estoques no comércio paulistano, que varia de 0 a 200 pontos e tem 100 como referência para separar níveis considerados adequados dos inadequados, chegou a 103,8 pontos em setembro, o menor nível desde junho de 2021. Apenas 51,6% dos empresários consultados consideraram seus estoques adequados, também o menor percentual desde junho de 2021.
É importante fazer uma ressalva: o indicador da FecomercioSP mede a percepção sobre estoques do comércio como um todo e não representa especificamente o segmento de material de construção. Ainda assim, há razões para considerar que o movimento seja um sinal relevante para o setor. Além da retração no faturamento real no primeiro semestre, materiais de construção normalmente trabalham com estoques mais volumosos, maior necessidade de espaço físico e, em diversos casos, produtos de maior valor unitário e menor velocidade de giro.
Outro dado da pesquisa merece atenção, entre os empresários que consideram seus estoques inadequados, 28,9% afirmaram que eles estão acima do nível adequado, o maior percentual desde março de 2023. O sinal é importante: em um ambiente de vendas mais fracas, aumenta a percepção de que parte das mercadorias está permanecendo por mais tempo do que o desejável no estoque.
Para o empresário de materiais de construção, isso representa mais do que mercadoria ocupando espaço. Significa capital de giro imobilizado, custo de armazenagem e menor capacidade de utilizar o caixa em outras necessidades do negócio. Quanto mais tempo um produto permanece parado, maior pode ser também a necessidade de descontos para sua venda, especialmente quando há mudança de preços, modelos, padrões de consumo ou lançamento de novos produtos.
Por isso, estoque precisa estar diretamente conectado à estratégia de mix de produtos e ao histórico de vendas da empresa. Em um momento de maior restrição financeira, vale perguntar: quais produtos efetivamente giram? Quais possuem maior margem? Quais têm demanda recorrente? Quais apresentam forte sazonalidade? E quanto capital está sendo consumido por mercadorias que permanecem meses no estoque?
O histórico de vendas e de estoques de períodos anteriores é uma ferramenta importante para responder a essas perguntas. Ele permite identificar a sazonalidade, dimensionar melhor as compras e evitar que o empresário repita, sem perceber, excessos ocorridos em períodos anteriores. Da mesma forma, o acompanhamento das vendas deve ser cada vez mais frequente. O estoque de ontem deve ajudar a orientar a compra de amanhã.
Essa gestão ganha ainda mais relevância porque o setor é particularmente sensível ao custo do crédito. Segundo o Banco Central, a taxa média anual das operações de crédito com recursos livres para pessoas jurídicas chegou a 25,36% em julho, o maior nível desde meados de 2017. Para as empresas, isso significa que eventuais necessidades de financiamento provocadas por capital de giro insuficiente podem ter um custo elevado.
O mesmo raciocínio vale para o consumidor. Materiais de construção possuem forte relação com o financiamento das famílias, seja para reformas, ampliações ou aquisição de bens de maior valor. Juros elevados para pessoas físicas também reduzem a capacidade de consumo e podem postergar decisões de compra, afetando justamente produtos que permanecem por mais tempo no estoque.
Por isso, a recomendação para o empresário não é simplesmente reduzir estoques. É buscar um estoque mais inteligente. Isso significa revisar o mix, identificar produtos de maior giro, acompanhar diariamente as vendas, utilizar o histórico de períodos anteriores para considerar a sazonalidade e negociar com fornecedores prazos compatíveis com o ciclo de venda das mercadorias.
Para o varejo de materiais de construção, a boa gestão do estoque pode fazer a diferença entre ter uma loja abastecida e ter dinheiro parado. O objetivo não deve ser simplesmente ter mercadoria disponível, mas ter a mercadoria certa, na quantidade certa e pelo tempo necessário para transformá-la em venda e, principalmente, em caixa.
























