Por Eduardo Yamashita, sócio-diretor da Gouvêa Inteligência.
O resumo de 2026 deverá ser marcado por um frágil equilíbrio entre o controle da inflação e o peso do endividamento. O consumo das famílias brasileiras é o principal motor da nossa economia, representando cerca de dois terços do PIB brasileiro e sendo peça central no desempenho econômico. Entretanto, observamos em 2025 um descolamento entre os principais indicadores macroeconômicos que norteiam o consumo e o desempenho do consumo e do varejo.
De um lado, emprego, renda e renda média apresentaram os melhores números da série histórica. De outro, praticamente todos os setores do varejo e dos serviços não acompanharam esse bom desempenho. Essa contradição merece uma análise profunda neste início de 2026.
A taxa de desemprego continua batendo recordes, registrando apenas 5,1% de pessoas desocupadas no País em dezembro de 2025, o menor nível da história. Esse patamar é muito próximo do pleno emprego, indicando que, sob essa métrica, praticamente todas as pessoas qualificadas que procuram trabalho conseguem se recolocar em um curto espaço de tempo.
Já a taxa de participação na força de trabalho, que mede o percentual da população em idade ativa que está ocupada ou buscando emprego, permanece baixa. O indicador do IBGE está atualmente em 62,6%, abaixo dos 66,5% registrados durante o boom econômico do início dos anos 2000. Isso sinaliza que uma parcela relevante da população permanece à margem do mercado formal ou em situação de desalento, ou seja, desistiu de procurar trabalho.
Outro aspecto para ser considerado é a qualidade da ocupação, uma vez que a metodologia do IBGE considera ocupado quem trabalhou apenas uma hora na semana, fator que mascara o subemprego e os impactos dos programas sociais do governo, que podem desincentivar o trabalho formal ou até mesmo impactar a declaração dos respondentes da pesquisa.
Confiança baixa e inflação alta no acumulado
A confiança do consumidor está estagnada na casa dos 85 aos 90 pontos (87,3 pontos em janeiro de 2026) como apurado pela FGV, patamar muito próximo do que tínhamos na pandemia, refletindo a desconfiança das famílias diante de sua situação econômica, resultado direto de um ciclo de três anos de aumentos acumulados, que corroeram a renda e alteraram os hábitos básicos de consumo.
A alta da inflação de alimentos no domicílio nos últimos três anos compromete uma fatia cada vez maior do orçamento familiar. Mesmo com a desaceleração recente do índice, o patamar de preços continua elevado, consumindo uma parcela relevante dos recursos das famílias. Esse cenário resulta em uma renda estrangulada por itens de primeira necessidade e em um endividamento crescente.
Massa salarial e a concentração da renda
Embora a massa salarial real tenha atingido o marco de R$ 367,6 bilhões em dezembro de 2025, o reflexo no varejo em 2026 ainda sugere uma distribuição desigual.
A base da pirâmide permanece altamente sensível. Enquanto as classes mais altas direcionam o excedente para serviços e poupança, as famílias de baixa renda continuam direcionando seu orçamento para itens essenciais como moradia, transporte e alimentos.
Comprometimento da renda
O comprometimento da renda e, de forma mais preocupante, a inadimplência atingiu patamares recordes ao final de 2025. Atualmente, 81,2 milhões de brasileiros têm dívidas em atraso, segundo dados da Serasa em dezembro de 2025, representando que 57% da população economicamente ativa (PEA). Esse dado escancara a pressão sobre o orçamento das famílias, com pouco ou nenhum espaço para o consumo, além do essencial e também a dificuldade de acesso ao crédito, que está caro e limitado.
Varejo com crescimento ainda tímido
Os dados consolidados mostram que o varejo perdeu fôlego. O setor saiu de um crescimento de 4,1% em 2024 para apenas 0,1% no acumulado de 2025.
Até mesmo os setores resilientes e de primeira necessidade, como supermercados e farmácias, apresentaram redução no ritmo de crescimento. Já alguns setores como vestuário e móveis apresentam variações positivas apenas devido à base de comparação fraca dos anos anteriores.
Perspectivas para 2026
As perspectivas para o restante de 2026 desenham um cenário de transição cautelosa. A retomada do consumo como motor do PIB dependerá do arrefecimento da inflação de alimentos, de um ciclo sustentável de queda nos juros para destravar o crédito e da recuperação da confiança das famílias.
O desafio central do ano é converter o desemprego baixo em crescimento real, superando a barreira do endividamento recorde que ainda sufoca o orçamento doméstico.
O ambiente econômico deste semestre será impulsionado pela eleição, que historicamente gera de um lado incerteza maior e, de outro, uma maior circulação de recursos na economia via incentivos governamentais e programas sociais que devem injetar dinheiro novo na economia, mas que, ao mesmo tempo, geram pressão inflacionária.
Em resumo, 2026 deve ser um ano de recuperação gradual. O bolso das famílias permanece sob pressão, priorizando itens essenciais em detrimento do consumo discricionário, com atenção redobrada para uma potencial ressaca em 2027 no ano pós-eleição.
























