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Por Jaime Vasconcellos, economista.

O avanço do endividamento das famílias brasileiras tornou-se um dos principais fatores para compreender os limites recentes do crescimento do consumo no país e, consequentemente, os desafios enfrentados por diversos segmentos do comércio na segunda metade do ano passado. Entre eles, o varejo de materiais de construção se destaca como um dos mais sensíveis a esse cenário, uma vez que grande parte de suas vendas está associada a compras de maior valor agregado, frequentemente dependentes de crédito ou de maior disponibilidade de renda das famílias.

Nos últimos anos, o Brasil passou a conviver com um quadro aparentemente contraditório. Ao mesmo tempo em que o mercado de trabalho apresenta indicadores positivos, com níveis historicamente baixos de desocupação e crescimento contínuo do emprego formal, segundo o Novo Caged, a capacidade de expansão do consumo das famílias vem demonstrando sinais de perda de fôlego. Em tese, mais pessoas empregadas e recebendo salários deveriam ampliar a circulação de renda na economia e estimular as vendas no comércio. No entanto, na prática, parcela significativa dessa renda já está comprometida com dívidas, reduzindo o espaço para novas compras, especialmente aquelas de maior valor.

Dados recentes da FecomercioSP mostram que cerca de 70% das famílias paulistanas estavam endividadas em fevereiro de 2026, percentual que vem crescendo desde o fim do ano passado. Desse total, aproximadamente 20,4% já possuem dívidas em atraso. Paralelamente, informações do Banco Central indicam que o endividamento das famílias com o sistema financeiro atingiu 49,7% da renda em janeiro de 2026. Ainda mais relevante é o comprometimento mensal dessa renda com o pagamento das dívidas, incluindo juros e amortizações, que chegou a 29,3% do orçamento familiar, o maior patamar da série histórica.

Esse contexto ajuda a explicar por que o aumento da renda e do emprego não se traduz automaticamente em expansão do consumo. A lógica econômica é simples: não basta haver renda se ela já está amplamente comprometida. Quando uma parcela significativa do orçamento familiar é destinada ao pagamento de parcelas de crédito, cartões, financiamentos e dívidas acumuladas, o espaço para novos gastos se torna restrito. Em muitos casos, as famílias priorizam despesas essenciais e adiam decisões de consumo consideradas menos urgentes.

No caso específico do varejo de materiais de construção, essa dinâmica tende a ser ainda mais evidente. Diferentemente de segmentos ligados ao consumo cotidiano, boa parte das compras desse setor envolve valores mais elevados e planejamento financeiro por parte do consumidor. Reformas estruturais, ampliações residenciais ou aquisições de maior porte frequentemente dependem de crédito ou de maior folga no orçamento doméstico. Em cenários de renda comprometida e crédito caro, essas decisões tendem a ser postergadas ou substituídas por reformas pontuais e manutenções mais simples.

Além disso, mesmo com a inflação apresentando desaceleração ao longo do segundo semestre do ano passado, isso não significou redução efetiva dos preços. Na prática, produtos e serviços continuam mais caros do que em períodos anteriores, apenas avançando em ritmo menor. Esse ambiente, combinado a taxas de juros ainda elevadas, mantém o crédito em patamar restritivo e dificulta tanto a renegociação quanto a quitação de dívidas, contribuindo para a persistência da inadimplência.

Do ponto de vista macroeconômico, esse cenário impõe limites claros ao crescimento do país. O consumo das famílias responde por mais de 60% do Produto Interno Bruto (PIB) pela ótica da demanda. Quando esse componente perde dinamismo, os reflexos são sentidos em diversos setores da economia, especialmente no comércio, que é o elo mais direto entre a produção e o consumidor final.

Os números recentes ajudam a ilustrar esse movimento. Segundo a Pesquisa Mensal do Comércio do IBGE, o volume de vendas de materiais de construção caiu 0,6% no Brasil nos 12 meses encerrados em janeiro de 2026. No Estado de São Paulo, principal mercado consumidor do país, a retração foi mais aguda, de 2,2%. Aos empresários, compreender esse ambiente torna-se fundamental para o planejamento estratégico. Em um contexto de orçamento familiar pressionado, o consumidor tende a ser mais cauteloso, seletivo e sensível a preços, exigindo do setor maior eficiência comercial, melhores condições de pagamento e estratégias capazes de estimular (marketing) a realização de reformas e melhorias, mesmo diante de um cenário econômico mais desafiador.


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