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A disseminação de ferramentas digitais nas organizações deverá ampliar a necessidade de preparo das equipes e de critérios para delegar decisões aos sistemas automatizados. Segundo a pesquisa pesquisa “Futuro da Inteligência Artificial nas Organizações — Cenários, competências e governança até 2035”, da FIA Business School e coordenada pela professora doutora Renata G. Spersda, 86% dos especialistas consultados defendem um modelo que combine núcleos especializados em inteligência artificial com conhecimentos básicos sobre a tecnologia em toda a força de trabalho. O estudo utilizou a metodologia Delphi, com duas rodadas de consulta a especialistas: a primeira reuniu 45 respondentes e a segunda, 35. Os percentuais apresentados referem-se à etapa final.

O modelo de conhecimento restrito a especialistas recebeu apenas 3% das indicações. A avaliação predominante é que gestores e funcionários precisarão desenvolver capacidade para formular problemas, utilizar ferramentas, avaliar resultados e reconhecer riscos. Aos núcleos especializados caberão competências mais aprofundadas em tecnologia, integração e governança. “O futuro não parece apontar para empresas divididas entre quem entende de IA e quem não entende. O que aparece é uma arquitetura de conhecimento em dois níveis: especialização profunda em alguns núcleos e fluência suficiente em IA disseminada pela organização”, afirma Renata.

A perspectiva de maior utilização da tecnologia não se traduz em apoio à delegação irrestrita. Na segunda rodada, nenhum participante indicou autonomia plena dos sistemas até 2035. A supervisão parcial, com intervenção humana em decisões estratégicas e éticas, foi escolhida por 51%, enquanto 37% preferiram a autonomia auditável. Nos conselhos e na governança corporativa, 83% apontaram a análise de cenários estratégicos como uma das principais aplicações da IA. O apoio à conformidade recebeu 46% das indicações, e a geração de pareceres automatizados, 31%. Os resultados apontam espaço para ampliar a capacidade de simular alternativas e antecipar riscos, preservando a deliberação e a responsabilidade humanas.

Competências e organização do trabalho

O pensamento crítico liderou as competências humanas consideradas mais relevantes, com 54% das indicações. Na sequência aparecem inteligência emocional, com 49%; criatividade e inovação, com 34%; e empatia e ética, ambas com 31%. A capacidade de questionar respostas, contextualizar análises e assumir responsabilidade pelas decisões ganha destaque nesse cenário.

Os efeitos sobre a estrutura das empresas permanecem incertos. Para 37% dos participantes, haverá redesenho estrutural das organizações; 34% projetam cooperação integrada entre pessoas e sistemas; e 26% preveem substituição parcial de funções. A diversidade de respostas indica a necessidade de considerar diferentes cenários no planejamento das equipes e dos processos.

Entre os riscos da adoção intensiva, o uso antiético foi o mais citado, com 69%, seguido por viés algorítmico, com 63%, e vulnerabilidades cibernéticas, com 46%. A substituição de trabalhadores qualificados recebeu 17% das indicações. Essa posição no levantamento não elimina os possíveis efeitos sobre o emprego, mas evidencia a preocupação dos especialistas com a qualidade e a segurança das decisões.

O ambiente regulatório também concentra incertezas. A expectativa de regras regionais assimétricas foi indicada por 43%, enquanto 37% projetam conflitos regulatórios e instabilidade jurídica. Apenas 9% apontaram convergência para marcos globais robustos. Na avaliação sobre competitividade, a inovação contínua baseada em dados liderou, com 69%, seguida pela redução dos custos operacionais, com 66%, e pela criação de novos modelos de negócio, com 54%. Para a gestão do comércio, os temas levantados reforçam a importância de associar a adoção das ferramentas à capacitação profissional, à revisão de processos e à definição de responsabilidades.

Renata afirma que quanto maior a presença da tecnologia na estratégia e nas decisões, mais importantes se tornam governança, pensamento crítico, ética e accountability. “O diferencial competitivo estará na qualidade dessa combinação”, finaliza Renata.


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