Por Jaime Vasconcellos, economista.
Divulgação recente do Banco Central mostra que o juro médio do crédito com recursos livres às empresas atingiu em julho 25,36% ao ano no Brasil, o maior nível desde julho de 2017. O crédito com recursos livres é o dinheiro emprestado pelos bancos onde as taxas de juros e o uso do valor são definidos livremente pelo mercado, isto é, é o “crédito tradicional de mercado”, em que o banco decide para quem empresta e quanto cobra.
Este recente patamar supera em cerca de 1 ponto percentual a taxa média registrada em junho e fica 0,34 ponto percentual acima de julho do ano passado. Também é mais que o dobro do menor valor da série, atingido em setembro de 2020 (11,45% ao ano).
Evolução da taxa média anual de juros das operações de crédito com recursos livres no Brasil – Pessoas Jurídicas (%)

Fonte: Banco Central
Chama-nos atenção que, de junho para julho de 2026, os maiores aumentos dentre as principais modalidades de crédito empresarial foram das seguintes linhas:
- Cartão de crédito rotativo: 146,06% ao ano para 230,36% ao ano (+84,3 p.p.)
- Cheque especial: 352,45% ao ano para 356,05% ao ano (+3,60 p.p.)
- Capital de giro com prazo superior a 365 dias: 21,58% ao ano para 23,55% ao ano (+1,97 p.p.)
Por outro lado, a Antecipação de faturas de cartão de crédito viu o seu juro médio anual passar de 16,75% para 16,25%, redução de 0,50 ponto percentual, e a Conta garantida passou de 61,62% para 57,38%, recuo de 4,24 pontos percentuais.
O custo elevado do crédito merece atenção especial no varejo de material de construção, setor em que as vendas são particularmente sensíveis às condições de financiamento das famílias e das empresas. Embora a Selic esteja em trajetória de queda, esse movimento não se transfere automaticamente para as taxas cobradas pelos bancos na ponta. Em julho, além do juro médio do crédito livre para pessoas jurídicas ter alcançado 25,36% ao ano, a inadimplência empresarial nessa modalidade chegou a 4,19%, maior patamar desde maio de 2018, sinalizando um ambiente de crédito mais caro e seletivo. Do outro lado, a taxa média do crédito livre às pessoas físicas ficou em cerca de 60% ao ano, também no nível mais elevado para o mês em 9 anos. Para o segmento de material de construção, portanto, o crédito caro pode atuar em duas frentes: encarece o financiamento do próprio negócio e, ao mesmo tempo, reduz o espaço financeiro dos consumidores para realizar obras, reformas e aquisições de maior valor.
Nesse cenário, a gestão do estoque e do capital de giro ganha importância ainda maior. Como materiais de construção podem permanecer por mais tempo armazenados e representar parcela relevante dos recursos aplicados pela empresa, estoque excessivo significa dinheiro imobilizado e maior necessidade potencial de financiamento. A recomendação é reforçar o acompanhamento do giro por categoria e produto, evitar compras acima da necessidade efetiva, revisar itens de baixa rotação e negociar prazos mais adequados com fornecedores. Também é importante projetar o fluxo de caixa com maior frequência e preservar liquidez para despesas e compromissos essenciais, reduzindo a necessidade de recorrer a linhas emergenciais, especialmente cheque especial e crédito rotativo, cujas taxas atingiram níveis extremamente elevados. Em um ambiente de juros altos, vender mais não basta: é fundamental que a operação gere caixa, libere capital imobilizado em estoque e reduza a dependência de crédito de curto prazo.
























