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Por Jaime Vasconcellos, economista.
O PIB brasileiro cresceu 0,5% no segundo trimestre de 2026, mas o resultado traz uma mensagem importante para o comércio: a economia está crescendo em ritmo mais lento. O desempenho veio depois da expansão de 1,1% registrada no primeiro trimestre e confirma uma desaceleração que já vinha sendo projetada.

Entre os grandes segmentos da economia, a agropecuária teve crescimento de 2,8% na comparação com o primeiro trimestre. A indústria apresentou alta de apenas 0,1% e os serviços avançaram 0,2%. Já em relação ao segundo trimestre de 2025, o PIB cresceu 2,0%, enquanto Indústria e Serviços registraram expansão de 1,5% cada. Já o agro chamou novamente atenção, com aumento de 6,8%

O resultado agregado ainda é positivo, mas a análise de seus componentes mostra uma economia com menor capacidade de aceleração. O principal sinal de atenção está no consumo das famílias, que caiu 0,4% na passagem do primeiro para o segundo trimestre, após crescer 0,8% no período anterior. Essa queda é especialmente relevante porque o consumo das famílias representa mais de 60% do PIB brasileiro pela ótica da demanda. Portanto, quando esse componente perde força, o impacto sobre a atividade econômica é significativo. O resultado do segundo trimestre mostra justamente isso: apesar de a economia ainda ter crescido, a demanda das famílias não acompanhou o ritmo observado no início do ano.

Para o comércio, o indicador é ainda mais sensível. O varejo está diretamente conectado ao consumidor final e, por isso, costuma captar antecipadamente mudanças na renda, no crédito, no endividamento e na confiança. Uma redução na disposição de consumo tende a aparecer no setor antes de se tornar uma tendência mais evidente em outros segmentos.

Valor adicionado do comércio mostra acomodação

Outro dado que merece destaque é o comportamento do valor adicionado do comércio, indicador pouco explorado nas análises mais gerais sobre o PIB, mas de grande relevância para os empresários do setor. O comércio apresentou variação de 0,0% no segundo trimestre, permanecendo estagnado em comparação ao primeiro trimestre, quando havia crescido 0,8%. Na comparação com o segundo trimestre de 2025, o crescimento foi de 0,9%, abaixo do avanço de 1,0% observado no primeiro trimestre e inferior também à média de 1,5% registrada pelo setor de Serviços.

Esse desempenho reforça a percepção de que a desaceleração da atividade já alcança diretamente o comércio. O setor não apresentou retração, mas deixou de crescer na margem, em um ambiente no qual o consumo das famílias também recuou, considerando juros altos e seletivos, além do perigoso nível de endividamento e inadimplência dos consumidores.

Construção civil sente os efeitos dos juros elevados

Para o comércio de materiais de construção, há ainda outro indicador que merece atenção: o desempenho da própria indústria da construção civil. O setor recuou 0,4% no segundo trimestre em relação ao primeiro, depois de ter apresentado forte expansão de 2,8% nos três primeiros meses do ano. Na comparação com o segundo trimestre de 2025, entretanto, ainda registrou crescimento de 1,0%, abaixo dos 1,5% da indústria geral e dos 2,0% do PIB nacional.

O resultado sugere que a construção também começa a sentir com maior intensidade as condições financeiras mais restritivas. Por sua própria natureza, a atividade é particularmente dependente de crédito e de decisões de investimento de prazo mais longo, tanto para empresas quanto para as famílias. Em um ambiente de Selic elevada, financiamento mais caro e agentes econômicos mais endividados, a capacidade de sustentar novos projetos e ampliar investimentos tende a ficar mais limitada.

Para o comércio de materiais de construção, essa dinâmica é especialmente relevante, pois a demanda do setor está diretamente relacionada ao ritmo das obras, reformas e investimentos imobiliários. Assim, a retração de 0,4% na margem da construção funciona como mais um sinal de que os efeitos dos juros elevados começam a aparecer com maior clareza em segmentos sensíveis às condições de crédito.

A trajetória do PIB acumulado em quatro trimestres completa esse quadro. Até junho, a economia cresceu 1,9%, contra 2,0% nos quatro trimestres encerrados em março e 2,3% no encerramento de 2025. A taxa está, portanto, em sintonia com a expectativa de uma economia mais fraca em 2026. Depois de cinco anos com taxas superiores de crescimento, o Brasil deverá terminar este ano com uma expansão próxima de 2%, o que deverá representar o pior resultado anual desde 2020, quando a economia foi fortemente afetada pelos efeitos da pandemia. O mais importante, portanto, é que o PIB do segundo trimestre não contradiz o diagnóstico que vinha sendo apresentado. Ao contrário, os números reforçam a percepção de que a atividade entrou em uma fase de menor crescimento.

Para os empresários, esse cenário torna ainda mais necessário acompanhar os indicadores macroeconômicos. Juros, crédito, emprego, renda, inflação, confiança e consumo ajudam a compreender antecipadamente o ambiente no qual as empresas operarão. Para os dois últimos trimestres do ano, não há, no momento, sinais de uma alteração relevante desse quadro. A tendência é de continuidade de um crescimento moderado, com demanda mais seletiva e pouco espaço para uma aceleração significativa da economia.


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