Por Jaime Vasconcellos, economista.
A economia brasileira iniciou 2026 com crescimento de 1,1% no primeiro trimestre frente aos três meses anteriores, considerando os dados com ajuste sazonal, conforme divulgação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta sexta-feira (29). O resultado mostra recuperação em relação ao ritmo mais fraco observado no segundo semestre de 2025 e ficou dentro das expectativas.
Entre os setores produtivos, a agropecuária liderou o avanço da atividade econômica ao registrar alta de 2,0% no trimestre. A indústria apresentou expansão de 1,0%, com contribuição relevante das atividades extrativas. Já o setor de serviços, responsável pela maior parcela do PIB nacional, cresceu 0,5%.
No comércio, entretanto, o desempenho permaneceu mais contido do que a média da economia brasileira. O setor registrou crescimento de 0,6% frente ao trimestre anterior, avanço equivalente a pouco mais da metade do resultado do PIB nacional. Na comparação com o mesmo período de 2025, a atividade comercial cresceu 1,0%, também abaixo da expansão de 1,8% observada para a economia brasileira. Considerando o acumulado dos últimos quatro trimestres, o comércio registra alta de apenas 0,8%, enquanto o PIB nacional avança 2,0%.
Pela ótica da demanda, o consumo das famílias avançou 1,0% no trimestre, favorecido ainda pelo mercado de trabalho resiliente e pela expansão da renda. Os investimentos cresceram 3,5% no período e o consumo do governo apresentou elevação de 0,4%, todos em relação ao fim de 2025.
Já na comparação com o primeiro trimestre do ano passado, o crescimento de 1,8% do PIB confirma continuidade da expansão econômica, porém em intensidade menor do que a observada anteriormente. No primeiro trimestre de 2025, por exemplo, a economia brasileira havia crescido 3,1% frente ao mesmo período de 2024.
Análise
O resultado do primeiro trimestre mostra uma economia ainda em crescimento, mas já em ritmo acumulado menos intenso do que o observado nos últimos anos. A aceleração frente ao fim de 2025 chama atenção, especialmente após os avanços modestos registrados no terceiro e quarto trimestre do ano passado. Ainda assim, parte importante deste desempenho já era esperada, principalmente devido à força da agropecuária neste período do ano, marcada pela sazonalidade positiva das principais safras, especialmente a soja.
Quando observada em uma perspectiva mais ampla, a atividade econômica brasileira segue perdendo intensidade gradualmente. A evolução dos resultados trimestrais na comparação anual mostra desaceleração contínua do crescimento, indicando perda de dinamismo da economia doméstica. A expectativa inclusive é de que o PIB brasileiro encerre 2026 com expansão inferior a 2%, mantendo uma sequência de seis anos consecutivos de crescimento, porém em um cenário mais evidente de desaceleração econômica.
O comportamento do comércio reforça esse ambiente de moderação da atividade. Mesmo permanecendo no campo positivo, o setor cresce abaixo da média nacional e sente diretamente os efeitos de um consumo mais pressionado. O atual cenário de juros elevados, crédito caro e elevado comprometimento da renda das famílias reduz a disposição do consumidor para compras de maior valor, aumentando a seletividade dos gastos e priorizando despesas essenciais.
Esse comportamento afeta principalmente segmentos mais dependentes de financiamento e renda disponível, como o comércio de materiais de construção, que tende a enfrentar um ambiente mais desafiador ao longo de 2026. Com o consumidor mais cauteloso, reformas, ampliações e investimentos domésticos de maior porte acabam sendo adiados, limitando uma recuperação mais consistente das vendas do setor no curto prazo.
























