Por Jaime Vasconcellos, economista.
O cenário econômico brasileiro em maio continua marcado por uma combinação de resiliência com aumento relevante das incertezas. A economia ainda apresenta crescimento moderado, dado que o mercado vem revisando as projeções do PIB deste ano cada vez mais próximas dos 2%. Parte importante dessa melhora nas expectativas está relacionada ao desempenho mais forte da atividade econômica no início do ano. O avanço do IBC-Br, indicador do Banco Central considerado uma espécie de prévia do PIB, acumulou crescimento de cerca de 1,3% no primeiro trimestre, reforçando a percepção de que a desaceleração da economia pode ocorrer de maneira menos intensa do que se projetava anteriormente.
O principal ponto de atenção segue sendo a inflação. As expectativas inflacionárias continuam avançando de forma persistente, inclusive acima do teto da meta do Banco Central, indicando que o processo de descompressão dos preços tem se mostrado mais lento e difícil do que se imaginava. Isso acaba afetando diretamente a confiança econômica e reduzindo o espaço para uma trajetória mais confortável dos juros.
Nesse contexto, aumenta o risco de manutenção da taxa SELIC em patamar elevado por mais tempo. Ainda que o ciclo mais agressivo de alta tenha ficado para trás, não se exclui a possibilidade de juros elevados durante boa parte do horizonte relevante.
Para o empresário, especialmente no varejo de material de construção, isso significa crédito caro, capital de giro pressionado, maior dificuldade para investir e um consumidor ainda bastante dependente de parcelamentos e financiamento. Sendo que os altíssimos níveis de endividamento e inadimplência desses mesmos consumidores têm significado um freio à performance do nosso setor.
Apesar dessas dificuldades, a economia brasileira segue encontrando algum suporte no mercado de trabalho. O emprego continua relativamente resiliente e ajuda a sustentar parte da renda das famílias. Porém, esse fator já não é suficiente para produzir uma sensação mais ampla de conforto financeiro. O consumidor segue convivendo com elevado comprometimento de renda e perda de capacidade de compra diante de um custo de vida pressionado.
Na prática, isso vem consolidando um comportamento mais cauteloso por parte das famílias. O consumo permanece seletivo, com maior sensibilidade a preços, promoções e condições de pagamento. Setores ligados ao varejo de bens duráveis, reformas e melhorias de maior valor agregado continuam sentindo mais fortemente esse ambiente de prudência.
Outro ponto de atenção está no setor de combustíveis. Especialistas afirmam que os preços domésticos da gasolina e do diesel apresentam razoável defasagem em relação às cotações internacionais do petróleo. Caso haja necessidade de reajustes futuros, os impactos tendem a se espalhar rapidamente pelos custos logísticos e pela inflação, pressionando ainda mais empresas e consumidores.
Ao mesmo tempo, o câmbio tem apresentado comportamento relativamente mais comportado, o que ajuda a evitar uma deterioração maior do cenário inflacionário. A estabilidade recente do dólar está funcionando como um importante fator de contenção de pressões adicionais sobre os preços, especialmente em setores dependentes de importações e insumos dolarizados.
No ambiente doméstico, os empresários também acompanham com cautela as discussões envolvendo as mudanças da jornada semanal de trabalho e a proibição da escala 6×1. Está cada vez mais claro que a pauta (com forte apelo eleitoral) avançará, sobrando apenas a forma e o prazo para início de vigência dos novos regramentos. E este tópico adiciona ainda mais incerteza ao planejamento das empresas, principalmente nos segmentos mais intensivos em mão de obra e entre micro e pequenos negócios, que possuem menor flexibilidade operacional e financeira para absorver mudanças abruptas.
Em resumo, maio reforça um cenário de crescimento moderado, porém cercado de dúvidas importantes. A atividade econômica continua demonstrando alguma resiliência, mas convivendo com inflação persistente, juros elevados e aumento das incertezas sobre custos e o ambiente regulatório. Para o empresariado, o mantra de cuidados extremos se mantém: cautela, disciplina financeira (fluxo e liquidez de caixa) e atenção constante ao comportamento de um consumidor ainda bastante pressionado.
ESTIMATIVAS PARA A ECONOMIA BRASILEIRA NO FECHAMENTO DE 2026:
- PIB: 1,95%
- Inflação (IPCA/IBGE): 5,1%
- Taxa SELIC: 13,25% a.a.
- Taxa de Câmbio: 5,15
- Balança comercial (em US$): + 75 bi
- Taxa de desocupação ao fim do ano (PNADc/IBGE): 5,3%
- Volume de vendas do comércio ampliado BR (PMC IBGE/12 meses): +0,8%
- Volume de serviços BR (PMS IBGE/12 meses): +2,5%
























