Por Jaime Vasconcellos, economista.
Este início do segundo semestre tem permitido uma avaliação mais segura sobre o rumo da economia brasileira em 2026. Se os primeiros meses do ano foram marcados por dúvidas em relação ao crescimento, à inflação e ao comportamento dos juros, agora o cenário começa a ganhar contornos mais definidos. As incertezas diminuíram, mas isso não significa que os desafios tenham desaparecido. O cenário-base para os próximos meses parece relativamente consolidado: a economia deve crescer cerca de 2% neste ano, a inflação tende a oferecer um alívio temporário e a taxa Selic deverá recuar um pouquinho mais, ainda que em ritmo mais lento do que se imaginava no início do ano.
As projeções para o Produto Interno Bruto (PIB) permaneceram estáveis nas últimas semanas, refletindo uma economia que continua demonstrando capacidade de crescimento mesmo em um ambiente de juros elevados. O mercado de trabalho, ainda aquecido, a expansão da massa salarial e o consumo das famílias seguem sustentando a atividade econômica. Para além do agro. Ao mesmo tempo, porém, a política monetária continuará impondo restrições importantes. O ciclo de redução da Selic deve prosseguir, mas de forma bastante gradual, mantendo o crédito caro para empresas e consumidores por um período mais prolongado.
No campo da inflação, as notícias recentes foram mais favoráveis. O IPCA de junho surpreendeu positivamente ao registrar uma variação de 0,16%, metade da esperada pelo mercado, reforçando a percepção de que os índices de preços deverão permanecer mais comportados ao longo do terceiro trimestre. A expectativa de uma possível deflação em agosto, influenciada principalmente pelo crédito extraordinário do Bônus de Itaipu nas contas de energia elétrica, deverá contribuir para reduzir temporariamente a inflação acumulada em doze meses e melhorar a percepção sobre o comportamento dos preços.
Entretanto, seria um equívoco interpretar esse movimento como a superação definitiva do problema inflacionário. Parte importante desse alívio decorre de fatores pontuais, enquanto os riscos para os próximos meses continuam relevantes. As tensões geopolíticas no Oriente Médio mantêm elevada a incerteza sobre o comportamento das cotações internacionais do petróleo, podendo pressionar novamente os preços dos combustíveis. Ao mesmo tempo, cresce a preocupação com possíveis impactos de condições climáticas adversas sobre a safra 2026/2027, o que poderá comprometer a oferta de alimentos e reacender pressões sobre um dos grupos de maior peso no orçamento das famílias.
Do lado da demanda, o consumo das famílias continuará sendo o principal motor da economia brasileira, respondendo por aproximadamente dois terços do PIB sob a ótica da demanda. Contudo, também começam a surgir sinais de perda de fôlego em seu principal sustentáculo: o mercado de trabalho. Embora o nível de emprego permaneça elevado, a geração de vagas formais vem desacelerando gradualmente, indicando uma expansão menos intensa da massa de renda nos próximos meses. Trata-se de um movimento que merece atenção, sobretudo porque o dinamismo do mercado de trabalho foi o principal responsável por sustentar o consumo durante o período de juros elevados.
Essa desaceleração ocorre justamente em um momento em que as famílias brasileiras convivem com o maior nível de endividamento da série histórica. A elevada utilização do crédito, especialmente do cartão de crédito, continua comprometendo parcela significativa da renda familiar e reduzindo a capacidade de realização de novos gastos. Assim, mesmo com uma inflação temporariamente mais baixa, o espaço para uma aceleração do consumo permanece limitado, uma vez que o comprometimento financeiro das famílias continua bastante elevado.
Para o varejo de materiais de construção, o ambiente econômico segue exigindo cautela. A melhora temporária da inflação poderá preservar parte do poder de compra dos consumidores e reduzir algumas pressões sobre os custos. Entretanto, os juros ainda elevados continuarão restringindo financiamentos imobiliários, reformas e investimentos de maior valor. Soma-se a isso um consumidor altamente endividado e um mercado de trabalho que começa a perder dinamismo, fatores que tendem a limitar uma recuperação mais vigorosa da demanda pelo setor.
O segundo semestre, portanto, inicia-se com menos dúvidas sobre a direção da economia brasileira. O crescimento deve se confirmar próximo de 2%, a inflação deverá oferecer algum alívio no curto prazo e a Selic continuará sua trajetória de redução, ainda que lentamente. No entanto, os principais desafios permanecem praticamente inalterados: crédito caro, elevado endividamento das famílias, perda gradual de dinamismo do mercado de trabalho e riscos inflacionários associados ao cenário internacional e ao comportamento dos alimentos. Em outras palavras, o cenário ficou mais claro, mas não necessariamente mais favorável.
ESTIMATIVAS PARA A ECONOMIA BRASILEIRA NO FECHAMENTO DE 2026:
- PIB: 2,00%
- Inflação (IPCA/IBGE): 5,20%
- Taxa SELIC: 14% a.a.
- Taxa de Câmbio: 5,20
- Balança comercial (em US$): + 75 bi
- Taxa de desocupação ao fim do ano (PNADc/IBGE): 5,3%
- Volume de vendas do comércio ampliado BR (PMC IBGE/12 meses): +0,8%
- Volume de serviços BR (PMS IBGE/12 meses): +2,5%
























