Por Jaime Vasconcellos, economista.
A economia brasileira continua com sinais contraditórios. De um lado, a atividade econômica continua demonstrando resiliência superior à esperada no início do ano. As projeções para o crescimento do PIB em 2026 seguem sendo revisadas gradualmente para cima, chegando a 2%, impulsionadas ainda pelo bom desempenho do mercado de trabalho, pela expansão da massa salarial e por um consumo das famílias que continua sustentado. De outro lado, a inflação retornou a ocupar o centro das preocupações e passou a representar o principal fator de risco para a economia nos próximos meses.
Os dados mais recentes mostram que o IPCA acumulado em 12 meses (4,72%) passou a superar novamente o teto da meta perseguida pelo Banco Central (4,5%). Mais do que um simples desvio temporário, o comportamento dos preços tem revelado uma inflação mais disseminada e persistente do que se projetava há alguns meses. Alimentos voltaram a ficar pressionados por questões relacionadas à oferta e aos custos logísticos, enquanto diversos segmentos de serviços seguem apresentando trajetórias ainda incompatíveis com um processo consistente de convergência inflacionária.
Esse quadro tem produzido reflexos diretos sobre a política monetária. Embora o ciclo de redução da taxa Selic deva prosseguir na reunião de junho do Copom, com a expectativa de novo corte 0,25 ponto percentual, não seria uma surpresa uma paralisação deste alívio monetário. Até porque, se a Selic estivesse mais baixa, o cenário atual muito provavelmente justificaria a manutenção da taxa básica de juros.
Para empresas e consumidores, esse cenário significa que o custo do crédito deverá permanecer elevado por um período mais longo do que se projetava anteriormente. Financiamentos, empréstimos e operações de capital de giro continuarão operando em condições restritivas, limitando investimentos e reduzindo a capacidade de expansão de diversos setores da economia.
Apesar desse ambiente mais desafiador, o mercado de trabalho segue sendo a principal fonte de sustentação da atividade econômica. A manutenção de baixos níveis de desemprego e o crescimento da renda do trabalho continuam contribuindo para preservar o consumo das famílias, evitando uma desaceleração mais intensa da economia. Essa combinação, aliada a uma política fiscal frouxa, ajuda a explicar por que as projeções de crescimento para 2026 permanecem positivas mesmo diante de juros elevados e inflação resistente.
No entanto, a sustentação do consumo tem ocorrido cada vez mais com o auxílio do crédito. A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), divulgada pela CNC, revelou que o percentual de famílias brasileiras endividadas alcançou 81,6% em maio, registrando o quinto aumento consecutivo e renovando o maior patamar de toda a série histórica. O dado evidencia uma crescente dependência do crédito para manutenção dos padrões de consumo em um ambiente de renda pressionada.
A composição desse endividamento também preocupa. O cartão de crédito permanece, de forma isolada, como a principal modalidade utilizada pelas famílias brasileiras, estando presente em 84,6% dos lares endividados. E o uso do cartão para cobrir compras rotineiras amplia a vulnerabilidade financeira das famílias e eleva o risco de crescimento da inadimplência nos próximos meses.
Para o varejo de materiais de construção, o cenário permanece desafiador. A manutenção dos juros em patamar elevado continua limitando o acesso ao crédito para reformas, ampliações e investimentos imobiliários, enquanto a inflação reduz o poder de compra das famílias e torna o consumo cada vez mais seletivo.
Embora o mercado de trabalho aquecido continue sustentando parte da demanda, o nível recorde de endividamento dos consumidores representa um fator adicional de preocupação, ao comprometer parcela crescente da renda familiar e restringir a capacidade de realização de gastos de maior valor.
Em síntese, o primeiro semestre encerra-se pior do que se projetava no início do ano. A expectativa para a segunda metade de 2026 repousa sobre uma eventual melhora do ambiente inflacionário e uma retomada mais consistente do processo de redução dos juros, fatores que poderiam devolver parte do fôlego ao consumo, ao crédito e aos investimentos ligados à construção e à habitação. Infelizmente, isso é mais esperança do que projeção.
ESTIMATIVAS PARA A ECONOMIA BRASILEIRA NO FECHAMENTO DE 2026:
- PIB: 2,00%
- Inflação (IPCA/IBGE): 5,35%
- Taxa SELIC: 13,75% a.a.
- Taxa de Câmbio: 5,20
- Balança comercial (em US$): + 75 bi
- Taxa de desocupação ao fim do ano (PNADc/IBGE): 5,3%
- Volume de vendas do comércio ampliado BR (PMC IBGE/12 meses): +0,8%
- Volume de serviços BR (PMS IBGE/12 meses): +2,5%
























