Por Jaime Vasconcellos, economista.
O envelhecimento da população brasileira vem produzindo transformações que ultrapassam os limites da demografia. À medida que aumenta a participação das pessoas mais velhas, mudam também os hábitos de consumo, as necessidades dos domicílios e as oportunidades para diferentes segmentos da economia. No varejo de materiais de construção, essa transformação já vem sendo observada pelo lado da demanda e, cada vez mais, também pelo lado da oferta de mão de obra.
A abordagem técnica adotada pelo Sincomavi ao tratar das oportunidades associadas ao envelhecimento populacional parte justamente dessa perspectiva: compreender que uma sociedade mais longeva exige do comércio não apenas atenção às características de seu consumidor, mas também adaptação de seus produtos, serviços e formas de atendimento. Os dados do mercado de trabalho do varejo de materiais de construção da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) acrescentam uma dimensão importante a essa discussão.
Embora o estoque total de trabalhadores do segmento tenha permanecido praticamente estável entre 2015 e 2025, pouco acima 93 mil postos de trabalho, a composição etária dessa força de trabalho mudou significativamente. E a transformação ocorreu justamente na direção esperada diante do processo de envelhecimento da população.
Entre as diferentes faixas etárias analisadas pela RAIS, os trabalhadores com 50 anos ou mais foram aqueles que mais avançaram no período. O contingente passou de 13.544 trabalhadores, em 2015, para 20.254 em 2025, uma alta de 49,5%, equivalente à incorporação de 6.710 pessoas ao mercado formal do varejo de materiais de construção da RMSP.
A faixa de 40 a 49 anos apresentou o segundo maior crescimento, de 16,1%, com a entrada de 2.996 trabalhadores no período. Em sentido contrário, o número de empregados com até 39 anos recuou 16,2%, representando 9.930 postos a menos.
Participação dos trabalhadores por faixa etária no varejo de materiais de construção da RMSP

O dado mais revelador, portanto, não está apenas no crescimento absoluto no número de trabalhadores mais experientes, mas no ganho de participação dessa faixa etária no mercado de trabalho do setor. Em dez anos, a presença de profissionais com 50 anos ou mais saltou de 14,5% para 21,7% do total de empregados formais do varejo de materiais de construção da RMSP. Isso significa que, em 2015, aproximadamente 1 em cada 7 trabalhadores do segmento tinha 50 anos ou mais. Em 2025, essa proporção já superava 1 em cada 5.
Trata-se de uma mudança que dialoga diretamente com aquela observada no mercado consumidor. O envelhecimento populacional não está apenas ampliando a presença de consumidores mais experientes nas lojas de materiais de construção: ele também está aumentando a participação de trabalhadores dessa faixa etária no outro lado do balcão.
Uma transformação muito maior que o varejo
Esses movimentos não devem ser interpretados como fenômenos isolados do setor. Eles fazem parte de uma transformação social e econômica de dimensão muito mais ampla: o envelhecimento populacional. O fenômeno é global e decorre, entre outros fatores, do aumento da expectativa de vida e da redução das taxas de fecundidade. Sua consequência mais evidente é a alteração da estrutura etária das sociedades, com aumento progressivo da participação das pessoas mais velhas.
Para as empresas, isso significa que a chamada economia da longevidade não deve ser compreendida somente como uma oportunidade de criar produtos ou serviços destinados ao público 50+. Ela também envolve repensar a própria organização dos negócios, inclusive suas políticas de contratação, composição das equipes e relacionamento entre diferentes gerações.
No varejo de materiais de construção, essa questão ganha importância adicional. O setor trabalha com um consumidor que muitas vezes precisa de orientação, conhecimento técnico e confiança para decidir uma compra. Nesse contexto, profissionais com maior experiência de vida podem representar um ativo importante para o estabelecimento.
Experiência é uma das maiores competências
A experiência acumulada ao longo da vida profissional pode contribuir de diferentes maneiras para o varejo. No atendimento ao público, por exemplo, a maturidade pode favorecer a capacidade de ouvir, compreender diferentes perfis de consumidores e lidar com situações que exigem paciência, negociação e confiança. Em um segmento no qual a compra muitas vezes envolve reformas, manutenção da residência ou investimentos de valor relevante, a segurança transmitida pelo atendimento pode fazer diferença na experiência do cliente.
Há também o conhecimento acumulado na própria carreira. Um profissional mais experiente pode trazer para a empresa não apenas conhecimento técnico, mas também repertório sobre produtos, fornecedores, clientes e situações práticas que dificilmente são adquiridos de forma imediata.
Isso não significa, evidentemente, que idade seja sinônimo de competência. A experiência deve ser considerada em conjunto com qualificação, disposição para aprender, capacidade de adaptação e desempenho profissional. O ponto é justamente reconhecer que a idade não deve ser tratada como um fator negativo por si só.
Essa percepção se torna ainda mais relevante diante de períodos de maior dificuldade para contratação. Em um mercado de trabalho no qual determinados segmentos enfrentam escassez de mão de obra, ampliar o olhar sobre os candidatos significa também acessar um contingente de profissionais experientes que muitas vezes permanece subaproveitado.
O combate ao etarismo começa na gestão
Nesse processo, um dos desafios para as empresas é superar o etarismo, isto é, a discriminação ou criação de estereótipos associados à idade. Pressupor que um trabalhador mais velho terá menor capacidade de aprender, menor disposição para trabalhar ou dificuldade de adaptação pode fazer com que a empresa descarte profissionais que poderiam contribuir justamente com atributos de que necessita.
O caminho é avaliar as pessoas por suas competências e pela capacidade de desempenhar as funções exigidas, e não por estereótipos relacionados à idade. Da mesma forma, equipes multigeracionais podem combinar características distintas: profissionais mais jovens podem contribuir com novas linguagens, familiaridade com determinadas tecnologias e outras perspectivas, enquanto trabalhadores mais experientes podem agregar repertório, conhecimento prático e maturidade no relacionamento com clientes e colegas.
Para o empresário do varejo, portanto, o envelhecimento populacional apresenta uma oportunidade que vai além da criação de produtos e serviços para um novo perfil de consumidor. Ele também convida a repensar quem compõe a equipe que estará diariamente diante desse consumidor.
Se o mercado consumidor está envelhecendo, faz sentido que as empresas estejam preparadas para compreender melhor esse público. E uma das formas de fazê-lo pode estar justamente na diversidade de experiências existente dentro da própria loja.
No varejo de materiais de construção da RMSP, os números da RAIS mostram que essa transformação já está acontecendo. A participação dos trabalhadores com 50 anos ou mais aumentou de 14,5% para 21,7% em apenas uma década. Mais do que uma estatística sobre o mercado de trabalho, esse movimento é um sinal de que a longevidade está remodelando diferentes dimensões da economia, inclusive aquilo que acontece do outro lado do balcão.
























