Por Jaime Vasconcellos, economista.
O ambiente macroeconômico brasileiro não apresentou mudanças significativas nas últimas semanas. O quadro que vinha se desenhando ao longo do primeiro semestre, com perda gradual de ritmo da atividade, está cada vez mais evidente. Depois de um início de ano ainda significativamente positivo, os indicadores mais recentes apontam para uma expansão mais moderada no segundo trimestre e para um segundo semestre marcado por crescimento mais baixo.
O Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 1,1% no primeiro trimestre de 2026 em relação ao quarto trimestre de 2025, na série com ajuste sazonal, resultado que confirmou a força da atividade no começo do ano. Para o segundo trimestre, entretanto, os indicadores antecedentes apontam para uma expansão de, no máximo, 0,3% em relação ao primeiro trimestre, evidenciando uma perda significativa de velocidade.
Os números setoriais reforçam essa trajetória. No comércio, o volume de vendas do varejo ampliado recuou 1,0% em junho ante maio, na série com ajuste sazonal, depois de queda de 0,3% em maio. O resultado representa o quarto mês consecutivo de retração nessa comparação mensal e mostra que o consumo de bens vem perdendo força. Ainda assim, no acumulado do ano, o setor apresenta crescimento de 1,9%, praticamente em linha com a expansão esperada para o PIB brasileiro em 2026.
Nos serviços, o quadro é um pouco mais favorável, mas também sem sinais de aceleração. O volume permaneceu estável em junho, após queda de 0,2% em maio. No acumulado do primeiro semestre, o setor cresceu 2,0%, também próximo ao ritmo projetado para o PIB no ano.
A indústria apresenta uma trajetória ainda mais clara de perda de fôlego. A produção industrial caiu 0,9% em maio e 1,8% em junho, sempre na comparação com o mês anterior e com ajuste sazonal. As duas quedas consecutivas retiraram parte importante dos ganhos registrados no início do ano. Ainda assim, a produção industrial acumula avanço de 1,5% no primeiro semestre, resultado que confirma que ainda não se trata de uma recessão, mas de uma mudança no ritmo de expansão.
Esse cenário de crescimento mais alinhado e desacelerado não chega a ser uma surpresa. Na Carta de Conjuntura do início do ano já havia sido feito um alerta para a dicotomia que marcaria 2026: um primeiro período ainda apresentando crescimento econômico visível, seguido por uma trajetória de expansão mais moderada. Entre os principais fatores por trás dessa dinâmica está a política monetária restritiva, com juros ainda muito elevados, mesmo diante do início de uma trajetória de redução da Selic. O efeito da política monetária sobre consumo, crédito e investimento ocorre com defasagens e, portanto, continua produzindo efeitos sobre a atividade mesmo quando a taxa básica começa a cair.
Há, por outro lado, uma notícia positiva no comportamento dos preços. A inflação perdeu força no curto prazo, especialmente no trimestre encerrado em agosto. O IPCA de julho desacelerou para 0,07%, influenciado principalmente pela queda dos preços dos alimentos. Em agosto, a inflação tende a apresentar comportamento ainda mais benigno, favorecida pelo recuo de alguns alimentos e, especialmente, pelo Bônus de Itaipu, que reduz as tarifas de energia elétrica para milhões de consumidores. A projeção, inclusive, é de deflação no mês.
É importante, contudo, não interpretar esse alívio como uma mudança estrutural da inflação. A partir de setembro, os índices mensais de IPCA e INPC tendem a voltar a ficar mais elevados, em parte porque o efeito temporário do bônus de Itaipu será encerrado. Além disso, permanecem riscos associados ao comportamento dos alimentos, ao cenário internacional e às condições climáticas. Continua-se projetando inflação acima de 5% para 2026, acima do teto da meta de 4,5%.
Dessa forma, o ambiente econômico para 2026 está, em boa medida, “dado”. Não se espera uma mudança abrupta no padrão de crescimento nos próximos meses. O principal desafio passa a ser outro: compreender como cada empresa está efetivamente atravessando esse ambiente. Os números setoriais positivos não significam necessariamente que todas as empresas estejam crescendo na mesma proporção. Para muitos negócios, o desempenho final, especialmente quando se considera margem, custos financeiros, despesas operacionais e geração de caixa, pode estar muito abaixo dos percentuais apresentados pelos indicadores agregados.
Para o comércio, essa diferença é particularmente relevante. Juros elevados, endividamento, menor disponibilidade de crédito e custos operacionais pressionam os resultados. O foco dos agentes econômicos passa, portanto, cada vez menos pela discussão sobre se a economia está crescendo e mais pela pergunta sobre quanto desse crescimento está efetivamente chegando aos seus negócios.
Ao mesmo tempo, o cenário econômico começa a dividir espaço com o processo eleitoral. Em menos de 45 dias, o país passará pelo primeiro turno das eleições, marcado para 4 de outubro. O ambiente político permanece bastante polarizado e ainda existem incertezas importantes tanto sobre os resultados quanto, principalmente, sobre os projetos econômicos e sociais que prevalecerão. Mais do que propostas pontuais, o desafio seria conhecer projetos capazes de promover mudanças estruturais e, consequentemente, alterar de maneira consistente a própria conjuntura econômica. Até o momento, infelizmente, pouco foi apresentado.
ESTIMATIVAS PARA A ECONOMIA BRASILEIRA NO FECHAMENTO DE 2026:
- PIB: 2,00%
- Inflação (IPCA/IBGE): 5,00%
- Taxa SELIC: 13,75% a.a.
- Taxa de Câmbio: 5,20
- Balança comercial (em US$): + 75 bi
- Taxa de desocupação ao fim do ano (PNADc/IBGE): 5,1%
- Volume de vendas do comércio ampliado BR (PMC IBGE/12 meses): +1,8%
- Volume de serviços BR (PMS IBGE/12 meses): +2,1%
























