Faz pouco tempo que entendi que novas receitas são necessárias. Sempre atuei com grande ênfase em eficiência operacional por meio do uso de tecnologias, antigas ou novas, acreditando que esse escopo poderia gerar diferenciais sustentáveis.

Toda a movimentação relacionada às novas tecnologias e à transformação digital não ajuda em nada neste entendimento, pois há muito mais discussões sobre digitalização do negócio atual do que realmente uma análise mais profunda sobre os fatores que permitirão uma organização sobreviver.

Parece um cenário caótico intencional, mas a grande maioria dos executivos estão confusos em meio a tantas tecnologias, falácias e novidades, e, talvez, bem poucos entendam de verdade o que está por vir. Aliás, muitos sentem, mas não conseguem, qualificar esse sentimento em termos e exemplos práticos.

A principal representante deste desafio é a indústria, em especial a que pertence a cadeias complexas, em que podemos destacar o setor automotivo, muito presente no interior de São Paulo, especialmente em Campinas e região. O assunto pode ser separado em alguns tópicos e exemplos indicados a seguir:

Os fabricantes de matérias-primas e equipamentos, além dos sistemistas, têm elevado grau de dependência das montadoras e dos destinos da matriz energética veicular, o que envolve a necessidade de novos projetos de engenharia para a criação de produtos substitutos;

Os esforços de ganhos de eficiência produtiva e logística são inócuos, com o pensamento atual, diante de consumidores que exigem atendimento na ponta com alta disponibilidade e custo aceitável, fazendo com que toda a relação de empresas com empresas e de empresas com consumidores esteja sendo alvo de reorientação e startups que pretendem capturar parte deste mercado, assim como operadores logísticos buscando adequar seus conjuntos de ativos e serviços;

As novas tecnologias embarcadas nos veículos, que permitem troca de informações com prestadores de serviços ávidos para conquistar clientes por meio deste canal;

As tendências de compartilhamento, com os novos consumidores não tão interessados em adquirir veículos, mas em alugá-los;

As redes de manutenção e prestação de serviços que precisam de atualização para estarem aptas a enfrentarem este consumidor mais exigente.

Sem exceção, todos os itens acima representam fontes adicionais de receita para quem optar por, de fato, tê-las como negócio principal. O maior propulsor das mudanças somos nós, consumidores.

A indústria ainda não sabe trabalhar com serviços, pois isso exige uma formatação de negócio muito diferente, mas ainda precisará continuar produzindo, maximizando todo o capital investido em ativos. Aliás, ter ativos é ótimo, diferente do que muitos vezes escutamos — “a empresa digital deve ser leve em ativos”. Ter ativos não impede ninguém de ser digital e de conquistar escala.

Embora as curvas de eficiência possam ser melhores, vencerá o jogo quem capturar a margem de lucro potencial que está escondida nesta cadeia. Cabe a cada participante de uma cadeia escrever proativamente o seu futuro antes que outros o façam.

Por Fernando Aguirre é sócio de Mercados Regionais da KPMG e estudioso da economia de serviços.