{"id":17001,"date":"2026-08-27T09:29:00","date_gmt":"2026-08-27T12:29:00","guid":{"rendered":"https:\/\/sincomavi.org.br\/?p=17001"},"modified":"2026-08-26T16:58:04","modified_gmt":"2026-08-26T19:58:04","slug":"crise-no-grande-varejo-conjuntura-ou-modelo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sincomavi.org.br\/?p=17001","title":{"rendered":"Crise no grande varejo: conjuntura ou modelo?"},"content":{"rendered":"\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n<div class=\"wp-block-post-date\"><time datetime=\"2026-08-26T19:29:48.379Z\">26 de agosto de 2026<\/time><\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por Jaime Vasconcellos, economista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A crise enfrentada por algumas das maiores redes varejistas brasileiras costuma ser atribu\u00edda aos juros elevados, ao consumidor endividado e \u00e0 desacelera\u00e7\u00e3o da economia. Esses fatores s\u00e3o reais e ajudam a explicar a deteriora\u00e7\u00e3o dos resultados. Mas n\u00e3o explicam tudo. O momento atual revela uma combina\u00e7\u00e3o mais complexa: h\u00e1 uma crise de conjuntura, mas tamb\u00e9m h\u00e1 sinais de esgotamento de um modelo de neg\u00f3cio, ou de gest\u00e3o do neg\u00f3cio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A dimens\u00e3o conjuntural \u00e9 evidente. A Selic, que estava em 2% ao ano no fim de 2020, chegou a 15% no in\u00edcio de 2026 e permanece em 14%. Para as empresas, isso encarece o capital de giro, o financiamento de estoques e a rolagem das d\u00edvidas. Para as fam\u00edlias, reduz a capacidade de financiar compras, especialmente bens de maior valor. Em julho, 82% das fam\u00edlias brasileiras estavam endividadas, segundo a CNC, o maior percentual da s\u00e9rie. O resultado \u00e9 um varejo pressionado dos dois lados: o dinheiro ficou mais caro para quem vende e para quem compra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E essa conjuntura n\u00e3o est\u00e1 sendo cruel apenas com as grandes redes. Dados da Serasa Experian mostram que mais de 9,1 milh\u00f5es de CNPJs estavam inadimplentes no Brasil em junho, o maior n\u00famero da s\u00e9rie iniciada em 2016, com R$ 232,9 bilh\u00f5es em d\u00edvidas. Quase 8,7 milh\u00f5es eram micro e pequenas empresas, respons\u00e1veis por R$ 201,4 bilh\u00f5es desse total. O com\u00e9rcio responde por cerca de um ter\u00e7o das micro e pequenas empresas inadimplentes. Ou seja, o ambiente de cr\u00e9dito caro, consumo mais seletivo e custos elevados atravessa o varejo independentemente do porte da empresa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas h\u00e1 um dado que impede uma explica\u00e7\u00e3o exclusivamente conjuntural: o varejo brasileiro continua crescendo. No primeiro semestre de 2026, o volume de vendas do varejo ampliado acumulou alta de 1,9%, segundo a PMC-IBGE. Se o mercado n\u00e3o est\u00e1 em recess\u00e3o, por que algumas das maiores empresas enfrentam crises t\u00e3o profundas? A resposta passa tamb\u00e9m pela estrutura dessas companhias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante d\u00e9cadas, o grande varejo construiu sua vantagem competitiva sobre expans\u00e3o f\u00edsica, escala, grandes estoques, centros de distribui\u00e7\u00e3o e, em muitos casos, cr\u00e9dito pr\u00f3prio. Quanto maior a rede, maior parecia ser sua capacidade de diluir custos e negociar com fornecedores. Esse modelo funcionou em um ambiente de capital relativamente barato e de menor concorr\u00eancia digital.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O problema \u00e9 que parte dessas vantagens mudou. O consumidor hoje compara pre\u00e7os em tempo real, pesquisa em diferentes plataformas e pode comprar de empresas que n\u00e3o precisam manter centenas de lojas. Marketplaces ampliaram a oferta e reduziram a import\u00e2ncia da presen\u00e7a f\u00edsica como diferencial isolado. Uma estrutura que antes representava escala pode, em determinadas condi\u00e7\u00f5es, transformar-se em muito custo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso \u00e9 particularmente relevante para o varejo de materiais de constru\u00e7\u00e3o. O setor tamb\u00e9m convive com lojas, estoques, log\u00edstica e capital de giro, mas precisa lidar com consumidores cada vez mais atentos a pre\u00e7o, prazo e disponibilidade. Em um ambiente de juros elevados, estoque parado deixa de ser apenas uma quest\u00e3o operacional: \u00e9 capital imobilizado que precisa ser financiado. Quanto maior o tempo de perman\u00eancia da mercadoria, maior o custo financeiro associado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A diferen\u00e7a entre faturamento e sa\u00fade financeira torna-se, ent\u00e3o, fundamental. Uma empresa pode vender bilh\u00f5es e ainda assim gerar pouco caixa. O que determina sua sustentabilidade n\u00e3o \u00e9 apenas o volume vendido, mas a margem, o giro dos estoques, a estrutura de custos, o endividamento e a capacidade de transformar vendas em recursos dispon\u00edveis. Escala, por si s\u00f3, deixou de ser sin\u00f4nimo de efici\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso n\u00e3o significa que todas as grandes empresas tenham cometido os mesmos erros. H\u00e1 diferen\u00e7as de gest\u00e3o, governan\u00e7a, endividamento, estrat\u00e9gia e capacidade de adapta\u00e7\u00e3o. Tampouco significa que os problemas estruturais eliminem a responsabilidade da atual conjuntura. Na realidade, os dois fatores se refor\u00e7am: juros elevados, cr\u00e9dito restrito e consumo mais seletivo reduzem a margem de erro e tornam muito mais vis\u00edveis as fragilidades acumuladas ao longo dos anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por isso, talvez seja mais adequado falar em uma crise de transi\u00e7\u00e3o. Quando os juros ca\u00edrem e o cr\u00e9dito melhorar, parte das dificuldades conjunturais certamente diminuir\u00e1. Mas a concorr\u00eancia digital, a transpar\u00eancia de pre\u00e7os e a mudan\u00e7a no comportamento do consumidor n\u00e3o desaparecer\u00e3o. O grande varejo ter\u00e1 de operar com menos depend\u00eancia de expans\u00e3o f\u00edsica e mais aten\u00e7\u00e3o \u00e0 produtividade, ao giro dos estoques, \u00e0 tecnologia, \u00e0 margem e \u00e0 gera\u00e7\u00e3o de caixa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A principal li\u00e7\u00e3o para todo o com\u00e9rcio \u00e9 justamente essa: a conjuntura explica a intensidade da crise, mas o modelo ajuda a explicar quem consegue atravess\u00e1-la. O ambiente econ\u00f4mico pode ser mais favor\u00e1vel ou mais adverso, mas empresas mais eficientes, menos alavancadas, com estoques adequados e maior capacidade de gera\u00e7\u00e3o de caixa tendem a ter mais condi\u00e7\u00f5es de resistir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para o varejo de materiais de constru\u00e7\u00e3o, essa distin\u00e7\u00e3o \u00e9 especialmente importante. O desafio n\u00e3o \u00e9 apenas esperar a melhora dos juros e do consumo. \u00c9 aproveitar a transforma\u00e7\u00e3o do setor para fortalecer a gest\u00e3o, elevar a produtividade e utilizar melhor o capital empregado. Em um mercado no qual crescer deixou de ser suficiente, crescer com margem, efici\u00eancia e caixa passa a ser a verdadeira medida de competitividade.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Jaime Vasconcellos, economista. A crise enfrentada por algumas das maiores redes varejistas brasileiras costuma ser atribu\u00edda aos juros elevados, ao consumidor endividado e \u00e0 desacelera\u00e7\u00e3o da economia. Esses fatores s\u00e3o reais e ajudam a explicar a deteriora\u00e7\u00e3o dos resultados. Mas n\u00e3o explicam tudo. 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